quinta-feira, 6 de junho de 2013

Escola: um espaço, privilegiado, para as práticas de escrita e leitura.
Autora: Dinorá Nunes de Azevedo Uliano

Como trabalhar o texto em sala de aula? Como fazer com que o aluno desenvolva autonomia na leitura de diferentes textos e na produção escrita? Certamente, estas perguntas permeiam a mente de muitos professores e professoras preocupados em formar cidadãos que estejam preparados para as práticas sociais, tais como, criticar, dialogar, argumentar, conviver, gerenciar a própria aprendizagem neste mundo contemporâneo e em transformação que é tão exigente.
O Currículo do Estado de São Paulo (p.7, 2008) “contemplando algumas das principais características da sociedade do conhecimento e das pressões que a contemporaneidade exerce sobre os jovens cidadãos”, define a escola “como um espaço de cultura e de articulação de competências e de conteúdos disciplinares a fim de que ela – escola- possa preparar o aluno para esse novo tempo”.
Convivemos com uma diversidade de textos verbais, não verbais, mistos, que se cruzam, se completam e se modificam a todo momento acompanhando a transformação do ser humano. E é nesse mundo de transformação que estudar a linguagem torna-se cada vez mais importante. É partindo deste pressuposto, que a escola, então, prioriza a competência de leitura e escrita.
Quantas vezes nós, professores e professoras, já nos deparamos com perguntas de nossos alunos de que escrever é difícil e impossível? Certamente que muitas vezes.  De acordo com o Caderno do Aluno 2º EM, Vol. 1, logo no início da Situação de Aprendizagem 2 diz que  “escrever não é uma tarefa fácil e também não é um dom para seres superiores e inspirados por entidades divinas”, mas, “bem orientado e empenhado, qualquer um pode escrever bons textos” , ou seja, escrever com significação e legitimação de sua autoria.
Frequentemente na escola, professores e professoras solicitam de seus alunos trabalhos escritos sobre determinado tema. Dá-se um tempo para que o aluno desenvolva este trabalho seguindo as orientações do professor ou professora de determinada disciplina. Porém, nem sempre o resultado é o esperado por parte deste professor ou professora. O que se percebe no trabalho dos alunos – praticamente todos- é que houve uma cópia, recorte de trechos de textos e que muitas vezes não estão coesos e nem coerentes. Não foram autores de sua própria escrita.  Como desenvolver no aluno autonomia para ser capaz de escrever com autoria, isto é, assumir a função-autor?
A escola é um ambiente privilegiado para que as práticas de escrita e leitura aconteçam, pois, ela acolhe uma variedade de gêneros textuais que permeiam a sociedade de ontem, de hoje e certamente a de amanhã. É na escola que, muitos dos alunos, têm acesso a poemas e poesias, às letras de músicas, à internet (Orkut, MSN, post, e-mail, facebook, enfim, a uma variedade de textos que circulam nesta esfera digital), a uma notícia de jornal ou de revista, a uma história em quadrinhos, a uma fábula diferente daquela que ele – aluno- já conhece, a um conto, romance, peça teatral, a uma biografia de autor. Ao mesmo tempo em que a escola acolhe esta diversidade de textos ela também regula o exercício da autoria. Diferentemente de inúmeros textos que circulam e não precisam que saibamos da sua autoria para a sua existência, tais como as pichações urbanas, panfletos, provérbios e máximas, cantigas de roda, etc. a escola requer do alunado competência para a produção e legitimação de um texto de sua própria autoria.
Segundo Silva “para produzir um texto é necessário, então, que o sujeito ocupe a função-autor ou, dito de outra maneira, que organize sua prática de linguagem conforme as determinações historicamente estabilizadas para uma função-autor específica, definida em relação ao funcionamento do discurso em condições de produção concretas e em relação a determinado gênero discursivo.” (2012, p. 04)
A partir do exemplo já citado anteriormente, uma pesquisa que deveria ser feita pelos alunos sobre determinado tema, o que o professor poderia fazer para que esses alunos efetivamente assumissem o papel de autor? Primeiramente, é necessário que haja uma orientação clara por parte do professor sobre a proposta de trabalho. Em seguida, o professor deve cobrar do aluno que ele coloque uma introdução e conclusão no trabalho. É importante explicar ao aluno sobre o conceito de plágio, pois, de acordo com Silva:
“o plágio pode ser interpretado como um silenciamento que opera sobre a função-autor, afetando a circulação dos sentidos (enunciados de um autor circulam como sendo de outro), pela apropriação indevida de sua formulação.” (2012, p. 08):
Muitos alunos por não conhecerem esta denominação e  se apropriam da ideia do outro achando normal. Conscientizar e orientar o aluno sobre tal ação dever ser priorizado para que o mesmo – aluno- adquira hábitos de escrita própria, com singularidade e legitimidade. Dar uma devolutiva do trabalho também é importante, pois, através das anotações e observações feitas pelo professor, o aluno “visualizará” o que, onde e por que errou e assim poderá se tornar  mais atencioso nos próximos trabalhos.
Uma atividade que o professor poderá desenvolver na sala de aula para que o aluno construa seu próprio texto, seja oral ou escrito, é propor que se leia um texto – da preferência do professor – e a partir deste texto identifique ideias-chave, grifando, sublinhando ou colorindo as partes “chaves” do texto e então, o reescreva utilizando o que foi identificado como importante. Após a reescrita, o professor poderá fazer uma roda de leitura dos textos mostrando aos alunos que um mesmo tema pode ser interpretado de diferentes maneiras por outras pessoas.
Nos Cadernos do Aluno, tanto do ensino fundamental quanto do ensino médio, é sugerida uma importante atividade: a “Discussão oral”. Essa atividade  faz com que o aluno pense e crie sua própria resposta expressando-a oralmente.
Outro fator importante é mostrar ao aluno que ao escrevermos temos uma intencionalidade, isto é, não escrevemos por escrever. Têm-se um objetivo a ser alcançado e que, ao escrever devemos antecipar a imagem de nosso leitor/interlocutor. Colocarmo-nos no lugar deste, imaginar um leitor ideal para nosso texto e indagar: o que se pretende com este texto? Há clareza e objetividade nas ideias? Como utilizar o vocabulário? Devemos lembrá-los ainda que, cada situação requer de nós uma produção escrita diferenciada, conforme afirma Silva:
Ser autor de um torpedo enviado por celular ou de uma redação escolar envolve práticas de escrita diferentes e uma relação diferente do sujeito com a linguagem. Não se espera de um autor barroco a clareza que se exige de um vestibulando, nem se cobra do redator de notícias de jornal a originalidade que almejamos para um escritor literário. “(2012, p. 12)
Outras atividades que poderão ser desenvolvidas em sala de aula a fim de priorizar a escrita seriam as paráfrases; paródias; formulação de orações a partir de palavras soltas; continuar uma história; iniciar e terminar uma história cujo desenvolvimento já tenha sido escrito; elaborar sínteses ou resenhas de filmes, artigos, relatar uma experiência importante que aconteceu em sua vida. Estas são algumas ideias para que o aluno, primeiramente, escreva, desenvolva o hábito, e a partir daí, possa criar “bases” para escrever com autonomia.  Realmente, como afirma Silva “um dos objetivos da escola é propiciar aos alunos que aprendam a ocupar a função-autor de forma adequada em relação às diversas práticas discursivas de nossa sociedade e aos diversos gêneros de discurso” (2012, p. 08). A escola então seria um palco cujos atores (alunos) estão “ensaiando” para a sua apresentação final (que seria a vivência em sociedade).
Com certeza , concomitante ao ato da escrita está o ato da leitura. Ler é essencial para que possamos ter uma bagagem leitora a fim de utilizá-la na produção escrita seja através da inferência, intertextualidade, alusões históricas, referências a outros autores, mostrando assim o grau de informatividade que o autor do texto apresenta. Mas como construir leitores capazes de autoria?
De acordo com o Currículo do Estado de São Paulo (2008, p.16) “a importância social e educacional de textos para a formação do aluno requer do mesmo diferentes situações de leitura”, ler textos, em situação pessoal, que são escolhidos pelo leitor de acordo com seu interesse, buscando o divertimento, informação ou reflexão; ler textos relacionados à vida pública para atender a uma demanda institucional predefinida ou a ela respeitar, ler em situação de trabalho ou ocupação, textos que são utilizados para fazer algo, ler texto em situação de educação formal que são prescritos para o ensino-aprendizagem de determinado assunto ou conceito (2008, p. 16). Silva exemplifica bem o que foi citado anteriormente quando comenta a relação ente o texto e o leitor:
“Sua relação com o texto, a interpretação realizada e até a fruição vivida são diferentes quando você se aproxima de um texto por interesse próprio, por lazer e quando debruça sobre esse mesmo texto como professor de língua e literatura, com a finalidade de preparar uma aula ou uma prova.” (2012, p. 16)
Além das diferentes situações de leitura é importante enfatizar também, as diferentes condições de produção de leitura. Orlandi (1988) elenca cinco condições que constituem a produção da leitura:
1.                 o contexto em que se faz a leitura;
2.                 os seus objetivos;
3.                 o lugar social ocupado pelo autor e o leitor do texto;
4.                 o tipo de discurso ao qual pertence o texto (sua relação com diferentes gêneros discursivos);
5.                 as histórias de leitura - isso é, as leituras anteriores - tanto do texto (leituras realizadas sobre o mesmo texto por outros leitores, que circulam na sociedade como comentários, resenhas, críticas etc.), quanto do leitor (leituras realizadas pelo mesmo leitor de outros textos, seja no seu processo de escolarização, seja nas diversas práticas sociais que supõem algum tipo de letramento).
Novamente, a escola torna-se um espaço para que se use de diferentes estratégias para a produção de efeito-leitor. Conforme Silva “é na escola que determinados gestos de leitura são legitimados e impostos como corretos ou desejáveis, enquanto outros são apagados ou mesmo impedidos ou desqualificados” (2012, p. 09). A autora acrescenta ainda que: “textos didáticos como prólogos, notas de rodapé, resenhas, comentários, fichas de leitura etc., participam desse gesto de leitura dominante, fixando e sedimentando determinados processos de interpretação.” (p.09)
Assim como a escola deve formar um aluno que se estabeleça como autor de seu texto, ela também deve fazer com que esse aluno estabeleça-se como leitor proficiente. É importante que os gestos de leitura dominante e cristalizados, que ditam regras do que é certo e errado, sejam repensados. Cada sujeito tem uma história de vida, de leitura, portanto, cada qual interpreta de acordo com a sua vivência.
Um professor ao utilizar-se de um texto, seja verbal, não verbal ou misto da esfera digital ou impressa (até mesmo manuscrito), para desenvolver leitura e interpretação, não deve dizer que aquela interpretação feita pelo aluno está errada ou não, e fazer com que a própria interpretação – do professor – seja a única e verdadeira – como muitas vezes ocorre. O professor deve orientar o aluno para que justifique a sua resposta identificando trechos do texto que comprovem o que foi interpretado. Cabe a ele – o professor -  conduzir os gestos de leitura para que o aluno se torne um leitor autônomo, pois, ele é o mediador do ensino-aprendizagem e é no espaço da escola que o ensino e a aprendizagem ocorrerá, primeiramente, e em seguida estendendo-se para fora dela.
O livro didático é um recurso que o professor pode utilizar para trabalhar a leitura com os alunos. Há sempre uma sessão no livro didático, destinada ao aprofundamento da leitura: leitura e interpretação de texto. Nesta sessão além do texto há perguntas que norteiam o aluno para interpretação.  No Caderno do Aluno do Estado de São Paulo também há este momento de leitura de texto – seja feito de modo autônomo, compartilhado ou pelo modelo de leitor, o professor. As perguntas que orientam a interpretação são bem subjetivas fazendo com que o aluno pense, questione e reflita a sua imagem como leitor do texto.
Seguir alguns procedimentos durante, antes e depois da leitura, pode tornar a atividade mais produtiva. É fundamental compreender conceitos e ideias de todos os textos lidos para não comprometer a sua interpretação. Um procedimento que pode facilitar a compreensão do texto é reconhecer a sua organização: como o autor estruturou as ideias e a sequência dos argumentos apresentados. É importante que o desconhecimento de uma palavra não comprometa a compreensão do sentido do texto, mas, se necessário devemos recorrer ao uso do dicionário (amplia o vocabulário e ajuda na melhor compreensão do texto).
Outro recurso de que dispomos é fazer pequenas interrupções e recapitulação daquilo que se entendeu. Podemos e devemos ir e voltar diversas vezes na leitura verificando a retomada, ou não, de um determinado trecho uma vez que faltou entendimento de um determinado trecho.
Devemos ficar atentos aos títulos e subtítulos que são importantes orientadores para uma boa compreensão de um texto, pois, geralmente fornecem pistas sobre o tema. Observar o uso do negrito, pois este destaca termos e expressões de relevância no texto, as legendas que acompanham as fotos, ilustrações e estabelecer uma relação entre eles; saber que todo texto tem uma intencionalidade, uma finalidade a ser alcançada e descobrir qual é esta finalidade.
Para aprender as estratégias de leitura, faz-se necessário que o aluno integre-as a uma atividade de leitura que tenha significado, assim, é preciso articular situações de ensino de leitura em que se garanta sua aprendizagem significativa. Quando se trata de ensinar as estratégias responsáveis pela compreensão, o aluno deve vivenciar e assistir ao que o professor faz quando ele mesmo se depara com a leitura ou com dificuldade de leitura. O professor deve ser um modelo de leitor ativo para seus alunos.
Um exemplo de modelo leitor é o próprio professor proferir a primeira leitura, em voz alta, na sala de aula para que os que ouvem – alunos- compreendam as palavras, ênfases, a pontuação. Em seguida indagar aos mesmos sobre o título, qual possivelmente seria o tema ativando os conhecimentos prévios- quem é o autor, o texto é pertencente a qual gênero textual?, compreender o propósito da leitura ( por que ler o texto?), há ilustrações, legendas? por que estão ali? qual é a ideia contida no terceiro parágrafo? Após questionamentos desse tipo, orientados pelo professor, este pode solicitar uma leitura silenciosa e pedir um resumo oral do texto em seguida um resumo escrito. Normalmente, nos livros didáticos os textos, que podem ser lidos repetidas vezes, são acompanhados de perguntas estabelecidas por seus autores para uma melhor compreensão do mesmo, o professor poderá solicitar aos alunos que respondam para verificar se estes – alunos – compreenderam o que leram o que está explícito como também o que está implícito, nas entrelinhas.
Como se percebe, autor e leitor constituem “uma via de mão dupla”, o texto só completa o seu sentido quando alguém o lê e quando o leitor identifica no texto sentidos para a produção da compreensão. É fundamental relembrar que a escola é o espaço onde as práticas de escrita e leitura irão se realizar de forma preponderante para a formação de cidadãos capazes de exercer a cidadania.


Referências Bibliográficas

Currículo do Estado de São Paulo/2008.
SILVA, Anna Christina Bentes da. Tema1:  Texto, Textualidade, Atividades de textualização.  LP003 Linguística Textual: Tipologias, Agrupamentos e Textualidade.  Campinas/SP: REDEFOR UNICAMP 2012.


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